O número

R$ 24,4 bilhões de lucro líquido em 2025. Crescimento de 120% sobre o ano anterior. O melhor resultado que a saúde suplementar brasileira já registrou desde que a ANS passou a consolidar esses dados.

O número impressiona. O que ele não mostra é mais relevante.

A composição do resultado

Três drivers. Nenhum depende de eficiência na gestão do custo assistencial.

A sinistralidade de 81,7% em 2025 não resultou de ganhos de eficiência na jornada clínica. Resultou de mensalidades reajustando acima da variação das despesas, movimento documentado pela ANS desde 2023. O resultado financeiro de R$ 14,7 bilhões sobre aplicações de R$ 134,5 bilhões é externo à operação assistencial e sensível à trajetória da Selic.

Retirados esses três componentes, o que sustenta a margem estrutural é a eficiência real no custo da jornada clínica. E é exatamente aí que a lacuna persiste.

O paradoxo

Lucro histórico e deterioração simultânea não se contradizem. São consequência da mesma estrutura.

No mesmo período, glosas iniciais subiram de 12,45% para 14,6%, segundo a Anahp. Reclamações dos consumidores atingiram 34.793, crescimento de 65% sobre 2024 e maior marca da série histórica. Esses dados não contradizem o lucro das operadoras. Medem lados diferentes de uma cadeia que nunca foi integrada pelo custo real da jornada assistencial.

A origem estrutural

O Custo Invisível Assistencial é a explicação que os dados confirmam.

Nos mapeamentos realizados pela Evodux em 65 organizações ao longo de nove anos, a mesma lacuna aparece com consistência: nenhum lado da cadeia opera com visibilidade sobre o custo real de uma jornada clínica completa.

O que se contrata é o procedimento isolado. O que se consome é o tratamento, com todas as etapas, intercorrências e protocolos que ele exige. A diferença entre esses dois valores é o Custo Invisível Assistencial (CIA).

Não aparece no balanço de ninguém, mas está presente em cada glosa, em cada negativa de cobertura e em cada reclamação registrada pelos consumidores.

A glosa de 14,6% não é sinal de má-fé. É sinal de que o protocolo contratado não corresponde ao protocolo executado. O problema está antes do contrato: na ausência de um mapa de custo real que anteceda a negociação.

Análise de risco

O resultado de 2025 foi construído sobre três variáveis que não se repetem.

Implicação

O intervalo antes do ajuste.

Resultado histórico em um setor com esse nível de opacidade de custo assistencial não é equilíbrio estrutural. É o intervalo antes do ajuste. Quando a Selic ceder, quando o espaço para reajuste se estreitar e quando o passivo contencioso se converter em caixa, o que vai sustentar a margem é a capacidade de operar com visibilidade real sobre o custo da jornada clínica.

Quem chegou a 2025 com resultado robusto sem ter mapeado o Custo Invisível Assistencial (CIA) chegará ao próximo ciclo sem a defesa que imagina ter.

Dados e fontes

ANS · Dados econômico-financeiros das operadoras de saúde, série histórica 2014–2025 (17/03/2026).

ANS · Índice Geral de Reclamações (IGR) e Monitoramento da Garantia de Atendimento, 4º trimestre 2025.

Anahp · Observatório Anahp, 2º trimestre 2025: glosas iniciais e pressão sobre prestadores.

Senacon / Ministério da Justiça · Consumidor.gov: ranking de reclamações, acumulado 2025.

BCB · Taxa Selic e resultado financeiro de seguradoras e operadoras, 2023–2025.

Keep Reading