
A maior parte das organizações de saúde no Brasil não sabem quanto custa tratar um paciente oncológico do diagnóstico à alta clínica ou o custo de tratar um paciente com AVC.
Essa resposta tem nome, tem método e tem resultado documentado.
Não porque falta competência.
Porque o modelo que organiza o setor nunca precisou dessa resposta para funcionar.
O fee-for-service remunera procedimento em quantidade.
Não tratamento ou jornada.
Essa distinção de uma palavra é a origem de todo o problema.
Quando o modelo não exige uma informação, o setor não a constrói. Quando o setor não a constrói, ela fica invisível. Quando ela fica invisível, a margem que ela representa desaparece sem rastro.
O fee-for-service não produz invisibilidade por falha. Ele a produz por design. O custo do tratamento nunca foi informação necessária para que o modelo funcionasse.

A sinistralidade recuou para 81,9%. O setor lucrou R$ 17,9 bilhões. E quase metade das operadoras encerraram 2025 com prejuízo operacional. Os três números coexistem porque a melhora foi de preço, não de custo. O setor ficou mais rápido em repassar. Não ficou mais capaz de enxergar.
01 O MECANISMO
O modelo construiu tudo que precisava.E nunca precisou do custo do tratamento.
Como décadas de sofisticação produziram um setor que sabe o preço de tudo e o custo de nada.
Sistemas de autorização. Glosa. Auditoria. Tabelas de procedimento. O conjunto é extenso, refinado, e controla uma coisa com precisão: o preço unitário do que é feito. Não o custo do que é tratado.
O Custo Invisível Assistencial é a distância entre o custo contratado e o custo real da jornada clínica.
Em oncologia, essa distância é de 30% em média. Em cirurgias pode chegar a 40%.
Ela não aparece no relatório porque o modelo nunca precisou que aparecesse.
Para o fee-for-service funcionar, basta que o procedimento tenha preço.
O custo da jornada completa não é exigência do modelo. A variação clínica entre dois pacientes com o mesmo diagnóstico, o custo-hora de estrutura por protocolo, a margem real de um tratamento oncológico do diagnóstico à alta: nenhum desses dados é necessário para que o modelo opere.
O setor construiu tudo que o modelo exigiu. E o modelo nunca exigiu o custo do tratamento.
Isso não é uma falha.
É a estrutura.
E estruturas só mudam quando há um instrumento que o modelo nunca forneceu.

O que o fee-for-service exige e o que ele nunca precisou que existisse · Evodux, 2026
Nove anos de análise em 65 organizações documentam o padrão com consistência.
91% dos gestores declararam que o Custo Invisível Assistencial não era mensurável antes do custeio por jornada.
73% dos CFOs não conheciam o custo real de seus cinco protocolos mais frequentes. Não por negligência.
Porque o modelo nunca exigiu essa resposta.
Contratos oncológicos representam entre 25% e 35% do custo assistencial total de uma operadora típica.
O desvio médio entre o custo contratado e o custo real da jornada é de 30%.
O Custo Invisível Assistencial (CIA) de uma carteira de 200 mil beneficiários já tem ordem de grandeza. O que ainda falta é o instrumento para enxergá-lo.

Base: 65 projetos em operadoras, hospitais e clínicas, 2016-2025.
02 A EVIDÊNCIA
A invisibilidade opera diferente em cada lado do setor.
Para a operadora, o CIA aparece como sinistralidade inexplicável. Para o hospital, como margem negativa sem causa rastreada. O mecanismo é o mesmo.
O Custo Invisível Assistencial não tem um ponto de entrada único. Ele aparece nos dois lados da relação assistencial, com manifestações distintas e a mesma causa.

Padrão temporal de acúmulo do Custo Invisível Assistencial · mediana de 65 projetos, 2016-2025
No lado da demanda, o CIA se manifesta como sinistralidade que cresce acima da média setorial sem causa identificável.
Uma operadora de médio porte no Sudeste, 280.000 beneficiários, renegociava contratos oncológicos anualmente por tabela unitária.
O time financeiro sabia quanto pagava por procedimento
Não sabia quanto custava o tratamento.
Quando 47 protocolos foram precificados de forma integrada, 18 deles operavam com margem negativa para a operadora, sem que nenhum dos dois lados da negociação soubesse.
Resultado documentado: R$ 47,3 milhões em custo estrutural identificado, redução de 4,3 pontos percentuais na sinistralidade em 18 meses, ROI de 11,2x.
No lado da oferta, o CIA se manifesta como margem operacional negativa em protocolos que deveriam ser rentáveis.
Um hospital de 180 leitos apresentava prejuízo em 23% dos seus protocolos cirurgicos mais frequentes.
A causa estava em 94 protocolos cujo custo real de execução era 34% superior ao preço contratado (pacotes) , diferença invisível enquanto o custo-hora de estrutura e a ociosidade operacional permaneciam fora do cálculo.
Resultado documentado: R$ 23,7 milhões em margem recuperada no primeiro ano, redução de 19,4% na ociosidade cirúrgica.
Dois ângulos. O mesmo mecanismo. A mesma ausência.
03 A IMPLICAÇÃO
A próxima fronteira não está em mais reajustes.
Está na capacidade de responder a pergunta que o modelo nunca precisou que ninguém respondesse.
Com inflação médica projetada de 11% para 2026 e 69% das operadoras nas Américas apontando o câncer como principal pressão de custos, a invisibilidade estrutural do fee-for-service deixou de ser tolerável.
Tornou-se seletiva.
Ela determina, agora, quais organizações sobrevivem economicamente no segmento de maior complexidade do setor.
Identificar o Custo Invisível Assistencial (CIA)sem implementar o protocolo precificado é trocar uma invisibilidade por outra.
O mapa não move a margem. A execução move.
Esse padrão foi documentado em 65 organizações ao longo de nove anos. Operadoras, hospitais, clínicas especializadas.
O intervalo entre 12% e 28% não foi capturado por organizações que mapearam o problema.
Foi capturado por organizações que implementaram o instrumento. Essa distinção é o resultado.

Eficiência econômica capturada após custeio por jornada · primeiros 18 meses · 65 projetos, 2016-2025
O que separa essas organizações das demais não é acesso à informação. É a presença do instrumento implementado. Não mapeado. Não planejado. Operando.
O padrão é documentado. O instrumento existe.
A questão é qual organização vai implementá-lo antes de ser forçada a fazê-lo.
Enquanto este texto é lido, há organizações de saúde operando
com a resposta que os dados já têm.
E há as que ainda vão precisar implementar.
Até o próximo domingo,

Inteligência, estratégia e resultados na saúde.
REFERÊNCIAS
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